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Escolher 5 (cinco) situações de vida para passar em câmara lenta...:
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I
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Sentados lado a lado na salinha escura do cinema, ela colocou a perna esquerda por cima da minha perna direita, encostando a cabecita frágil no meu ombro, enquanto carregava no colo, trémula, um baldezinho de plástico tamanho médio. Com a mão esquerda ia-me introduzindo na boca pedacinhos daquele milho doce e crocante. Do filme: "O Império dos Sentidos" soltavam-se gemidos contagiantes, provocando a queda súbita do balde e o tombar surdo das pipocas amareladas sobre os nossos regaços, espalhando-se por aquele chão inclinado na alcatifa cor de carne viva, em câmara lenta... II
De regresso a casa o motorista do táxi fixou demoradamente o seu olhar esbugalhado naqueles dois seres que se completavam, enquanto se recostavam no assento num perpétuo baloiçar provocado pela irreglaridade do piso, das curvas, arranques e travagens bruscas, murmurando palavras incontidas de desejo insaciado, em câmara lenta...
Chegados a casa, um sofá cinquentão, exalando um odor a pele genuína e bem curtida, acolhe-nos, no apogeu de sensações intimas descontroladas, consequência das imagens retidas de algumas cenas do filme que foi proibido. Um sofá pesado que enrolou a alcatifa persa colorida, como querendo fugir daqueles movimentos bruscos que o montaram na calada da noite, em câmara lenta... IV
A janela do quarto, semi-aberta, em noite estival, deixava penetrar as primeiras nesgas de sol, permitindo-nos ouvir o chilrear da passarada que, tal como nós, despertava para mais um dia de intenso procurar de alimento e de amor. Levei para aquela cama desfeita o tabuleiro com um pequeno-almoço nutritivo. As mãos tremiam e o bule com o leite derramou-se nos nossos corpos, deixando peganhentos os lençóis de cetim magenta, em câmara lenta....
Caímos exaustos no tapete branco de pêlo eriçado mas fofo, retomando a consciência ouvindo o apitar estridente da sirene da ambulância que nos transportava. O enfermeiro, de cara enorme e olhar distante e disforme, com alguma dificuldade espetava-me uma agulha nas costas da mão direita, agulha que me lembro ligada a um tubinho de silicone transparente, através do qual descia, a partir dum frasco de soro, gota a gota, o líquido que, decerto iria recebendo até chegar a uma enfermaria branca e com cheiro a éter. Recordo-me de, com a visão turva e sem sentir o peso semi-morto do meu corpo, lhe haver balbuciado em tom jocoso: - Por favor...injectem...nessa coisa...um suminho de gengibre...em câmara lenta... .
8 comentários:
:))
Primeiro vou rir-me às gargalhadas, depois volto!
Prometo que vou levar-te muitos doces ao sanatório.
Beijinhos, António, obrigada pelas pipocas!
Isabel
Caro António,
vi agora os seus comentários nos meus blogues, e deixei lá um recado para si, não sei se ajuda, mas também não sei exactamente ao que se refere.
Cada um interpreta as coisas da maneira que acha melhor eu só poderia ser assim é assim que eu sou e nunca mudo, não sei fazer as coisas de outra forma, embora saiba que sou criticada por ser boa mãe, mãe galinha....etc
não me importo sou como sou e oxalá nunca mude.
Em relação à gravidez,para mim é sublime este estado.
E agora para aliviar um pouco a tensão, em que eu acho que está vou contar-lhe uma coisa.
A minha mãe tinha uma amiga que teve muitos filhos, e quando tinha que preencher papelada onde pediam estado civil ela sempre punha GRAVIDA!!!
Beijo
Já estive aqui, hoje de tarde, a ler as respostas ao desafio, que o António gentilmente aceitou.
Eu não considero estes desafios banais, pelo contrário, quando uma pessoa é sincera, fica-se a saber muita coisa acerca dos amigos virtuais, assim como também da própria pessoa.
A resposta do António ao desafio, em forma de "brincadeira apimentada", diz muito acerca das suas fantasias e desejos.
Gostei muito!
António, desejo-lhe boa-noite!
Passando para deixar-te um beijo amigo.
Já ri às gargalhadas:)) E voltei, como tinha prometido.
António, és único...Assim como eu!
Beijoca
Isabel
Em câmara lenta, foi servido um policial, um género de literatura que sempre me atraiu bastante. por isso encantado até porque achei be escrito.
Daniel
Voltei porque reparei bem na foto e na entrada do meu blog adiafa filatelia. A foto é dos Correios, obtida na cerimónia. Creio bem que terá sido editada pela primeira vez hoje.
Apreciei!
Daniel
Gostei das tuas coisas em câmara lenta!! Beijos.
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