
O cantoneiro de limpeza, pachorrentamente, ia puxando e acumulando, com o ancinho de jardinagem, as folhas amareladas e crocantes que os sopros mais ou menos fortes do vento iam retirando aos galhos das árvores, deixando a descoberto alguns ninhos abandonados. Algumas das folhas caíam no lago esverdeado pelos limos e pelas nenúfares que lhe conferiam aquela tonalidade. De repente começaram a cair uns pingos grossos de chuva fria salpicando aquelas águas paradas e onde nadavam, sempre alegres, uns patinhos coloridos, alguns deles rodeados pela sua prole minúscula e amarelinha que, de imediato, na esteira dos seus progenitores, nadavam agora apressadamente para os seus abrigos construídos em cimento na borda do lago.
Uma vez mais, voltei-me para trás lançando um olhar de despedida à figura que ali permanecia, inalterável, no topo da estátua erigida em homenagem ao Dr. Souza Martins.
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Não me importa se és tu, meu amigo
Na dimensão onde o espaço é mistério
Quem alivia o sofrimento a tantos crentes
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Esperam de ti milagres, contam contigo
E vêm agradecer-te com lágrimas a sério
A graça da cura concedida aos teus doentes
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Apanhado desprevenido nesta tarde de princípio de Outono, sem gabardina nem chapéu de chuva, dei uma corrida até à paragem do carro-eléctrico.
Ao meu lado viajava uma linda e bela senhora, com uma criança de uns quatro aninhos ao colo. De repente, o guarda-freio daquele transporte público vê-se na necessidade de efectuar uma travagem brusca. Os passageiros são involuntariamente catapultados para a frente. Há quem grite, assustado. Porém, ninguém se feriu. A criança que seguia ao meu lado, dada a surpresa daquela operação de emergência, escapou aos braços da sua mãe, só não embatendo com a boquinha no varão do assento dianteiro porque eu tive tempo de estender o meu braço, amortecendo-lhe o choque e evitando que se ferisse.
Numa ocasião destas um bom e assumido macho latino aproveitaria imediatamente para entabular conversa com a linda e bela mamã. Porém, levantei-me e fui caminhando calmamente pela coxia até à porta de saída.
Ninguém, absolutamente ninguém, se apercebeu do meu gesto.
E lá segui a pé rumo ao meu destino, feliz comigo próprio, pensando se não será assim que actuam os "santos". Não esperam reconhecimento! Na outra dimensão não há protagonismos! Porque quando os seres humanos imperfeitos lhes pedem, em aflição, graças, eles não estão ali à espera, dia e noite, para os satisfazerem. Outros o fazem por eles. E não se importam que os agradecimentos - em forma de orações, promessas, velas a arder na base da estátua, ou mesmo lápides em pedra mármore com dedicatórias e fotos dos enfermos tratados e curados - lhes sejam atribuídos. Porque na outra dimensão, para nós ainda um mistério longe de ser revelado, o que os move é o AMOR, penso eu!
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Um comentário:
Olá
Gostei deste seu trabalho e parece-me que através dele poderemos fazer várias leituras.
O lago com os patinhos, o Dr Sousa Martins e a viagem de Electrico.
Quando as coisas estão bem consigo, consegue dar-nos a todos, imagens de rara beleza que poderemos admirar pelos seus olhos e a sua escrita. Parabens!
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